terça-feira, 14 de abril de 2026

Só sobreviver

Existe um tipo de cansaço que não se explica. Não é o cansaço do corpo depois de um dia longo, nem o sono acumulado de noites mal dormidas. É algo mais silencioso, mais profundo — como se a própria ideia de continuar exigisse um esforço desproporcional.

Eu venho carregando isso há algum tempo.

A rotina segue intacta, indiferente. O trabalho continua sendo um lugar onde eu compareço mais por obrigação do que por escolha, onde cada regra pequena parece maior do que deveria, como se alguém estivesse constantemente me lembrando de que ali não é meu lugar — mas, ainda assim, eu permaneço. Porque preciso. Porque não há outra coisa pronta me esperando do lado de fora.

E talvez seja isso que mais dói.

A sensação de que a vida depende de mim, mas ao mesmo tempo me escapa. Como tentar segurar algo com as mãos cansadas demais para sustentar qualquer coisa por muito tempo.

Eu penso em ir embora. Não só de lugares, mas de versões de mim mesmo. Penso na Espanha como quem olha para um ponto distante no horizonte, não exatamente com esperança, mas com uma necessidade quase desesperada de acreditar que existe alguma forma de vida além dessa que me foi entregue.

Mas o tempo… o tempo não colabora.

Às vezes, eu acho que desisti. Daquele tipo de esperança que não precisava de provas, que simplesmente existia. Hoje, tudo parece exigir justificativa. Tudo precisa fazer sentido. E quase nada faz. E então eu me pego questionando até aquilo que antes era intocável.

Deus, o mundo, justiça — conceitos grandes demais para alguém que só queria um pouco de paz dentro do próprio quarto. Mas até isso me falta. O lugar onde eu deveria descansar me cansa. O silêncio que eu deveria encontrar não existe. E assim, eu vou me perdendo aos poucos dentro de um cotidiano que nunca para de exigir, mas raramente oferece algo em troca.

Ainda assim… existem pequenos desvios.
Momentos raros em que eu esqueço de mim mesmo. Como naquele fim de semana, onde, por algumas horas, eu não precisei carregar o peso de existir com tanta consciência. Onde a vida não parecia uma tarefa, mas algo que simplesmente acontecia.

E isso me assusta. Porque mostra que não é impossível se sentir melhor. Só é raro. Raro demais. E talvez seja essa raridade que machuca mais do que a própria dor constante. Saber que existe uma versão da vida que é mais leve… e não saber como permanecer nela...

Então eu sigo. Não por convicção, nem por fé renovada, mas por uma espécie de continuidade automática. Um passo depois do outro, mesmo quando nenhum deles parece levar a lugar algum.

E no meio disso tudo, existe um pensamento que insiste em voltar: Talvez eu não esteja parado. Talvez eu esteja apenas lento demais para perceber que ainda estou indo, mas  isso também não é suficiente para me consolar.

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